Desconstruir a maternidade romântica é nosso papel

A forma como a sociedade coloca a maternidade romântica, tipo aquela ideia de que mães são seres perfeitos, sempre sorrindo, angelicais, santas que jamais erram é uma das ferramentas de opressão para nos vender a vontade de ser mãe.

Já cansei de ouvir de amigas childfree convictas que elas ainda têm um pedacinho lá dentro de vontadinha de ter filhos. Vontadinha essa, queridas, provocada pelo marketing que o sistema patriarcal faz em cima da maternidade.

Eles querem te seduzir sim. Sabe por quê? Porque mãe é mulher que não age. Mãe fica quieta pois tem seu tempo reduzido. Mãe não incomoda. Mãe está, em muitos casos, fora do mercado de trabalho. Mãe tem pouco tempo: o tempo que tem é precioso e normalmente é usado para coisas urgentes. Ativismo fica por último. Uma mãe é uma mulher com muito menos tempo de incomodar e de reivindicar seus direitos na sociedade. 

Mas eu estou aqui para tentar mudar isso. Não compre a idéia poética de ser mãe.

Mãe não é exclusivamente amor, carinho e compaixão. Mãe é uma mulher que sofre, que chora, que reclama. Mãe se tranca no banheiro por minutos livre pela sua sanidade. Mãe é uma mulher que, como nunca antes, questiona o patriarcado e os malditos papéis de gêneros dentro da maternidade. Mãe fica com inveja do pai e da vida dele que segue tão igual a antes. Mãe sente vontade de ter nascido homem. Mãe se exclui socialmente. Mãe carrega nas costas dupla ou tripla jornada. Mãe abre mão da vida profissional porque não tem escolha. Ou em muitos casos aceita qualquer trabalho porque precisa. Mãe vai rodar na entrevista de emprego, adivinha por quê? Porque é mãe. Mãe talvez seja uma mãe que não pôde ter acesso ao aborto e tenha sido obrigada a sê-lo. Mãe se arrepende. Sim, de ter se tornado mãe: pelo menos por um segundo, ela se arrependerá. Mãe se sente sozinha. Mãe atura marido por medo de se separar. Por medo de ser mãe solteira. Mãe atura até violência doméstica por isso. Mãe tem dores. Físicas e psicológicas, muitas dores. Além das suas dores, mãe também sente as da cria (10x mais forte). Mãe é mulher sobrecarregada. É mulher há dias sem dormir. Cansada. É mulher sem o mínimo de vaidade pois já abriu mão do que não é urgente. Ou é mulher vaidosa que se sente feia por não ter tempo. Mãe se sente muito feia. Tem que se acostumar com o novo corpo. Mãe passa fome. Passa dias sem tomar banho. Mãe olha para o céu e agradece quando consegue fazer xixi. Mãe tem suas vontades e necessidades jogadas para o lado para atender a cria. “Ahhhh mas mãe que é mãe faz isso feliz”. Ela tem escolha? Mãe é insegura. Mãe é uma mulher que se tornou tão vulnerável quanto como se sua pele do peito fosse arrancada e o coração estivesse exposto ali assim tão fácil de ser machucado.

Mãe se culpa, se culpa, se culpa diariamente e se questionará como mãe para o resto da vida pois a sociedade não vai cansar de apontar o dedo e lembrá-la de como ela provavelmente está fazendo isso errado.

Mãe é uma mulher que sonhou com a maternidade romântica e sofreu muito para adaptar-se quando viu que a realidade é bem diferente. E que, por conta da poesia que todos pensam quando se fala em “ser mãe”, ela não se sente no direito de reclamar. Não sem se sentir envergonhada ou culpada. Porque MÃE É MÃE, dizem todos. Essa frase opressora que serve de justificativa para que aceitemos todo o peso da maternidade sem reclamar, quase como se fosse “agora aguenta”.

Do site Vegana é a sua mãe.

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14 comentários sobre “Desconstruir a maternidade romântica é nosso papel

  1. Danielle disse:

    Tenho 36 anos e nunca quis ter filhos. Sou casada. São 7 anos de relacionamento e nada de vontade. Quando declaro minha inaptidão à maternidade, em geral, são os homens que me repreendem, na vã tentativa de me demover de tamanha loucura : ser mulher fértil e não ser mãe. As mães apenas assentem e dizem: “eu queria muito e é muito difícil. Imagina para quem não quer. Não tenha”. Enfim, obrigada por ser uma mãe tão corajosa. Negar a imposição social é valoroso. Seu filho tem sorte de ter uma mãe como você. É uma pessoa real e é bom ele, como homem, saber que mulheres tem limites, são pessoas e sofrem. Não estão na terra para serem mártires ou heroínas. São pessoas reais como qualquer outra. Obrigada pelo relato e pela coragem.

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    • Nossa sociedade condena muito, muito quem não quer ser mãe. E condena mais ainda quem foi mãe e assume que não gostou da experiência. É quase como confessar um crime. Sempre jogam aquela história de que ter filhos é uma dádiva, que filhos fazem brotar um amor incondicional… E se você for contra a corrente, vira um monstro. Este blog é a prova de que – no meu caso – ter um filho não foi exatamente uma decisão acertada. Claro que eu o crio bem e tal, ele não tem culpa da minha decisão, mas o que digo é: se você não tem convicção sobre ter filhos, não tenha mesmo. Só vai trazer sofrimento.

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  2. Gabriela disse:

    Nossa.Tenho 29 anos, sou mãe de uma bebê de 11 meses e tive uma gravidez não desejada, Nunca tinha parado para pensar se um dia ia querer um bebê, mas de fato, isso não estava nos meus planos pelos próximos anos,mããs… aconteceu! Não condeno quem não quer ter filhos, acho super aceitável, direito de cada um…mas acho meio absurdo pintar um cenário como se fosse a pior coisa do mundo. Claro que vai de experiência para experiência, mas se pra VC ser mãe é terrivel, vc nao pode sair por aí dizendo que ser mãe é horrivel! Eu fico cansada, tem semanas que não faço as unhas, demorei meses para ir ao salão depois do nascimento dela e fiquei uns 3 meses sem ver a cara da rua, a não ser em consultas médicas dela e vacina. Mas eu trabalho fora, sou formada, tenho uma carreira, um chefe que me apoiou, apoia e entende. Trabalho em uma empresa que tem políticas especiais para mães, inclusive com opções de fazer jornada reduzida ou home office! Não, eu não sou largada, eu não fiquei gorda, eu continuo vaidosa, vou a academia, trabalho full time (se não na empresa, em casa, fazendo papinha, cuidando dela). Durmo menos?sim. Minha vida mudou? sim. Hj eu não posso sair num sábado a tarde, sentar num bar com meu namorado e tomar todas… hj eu agendo meus programas com antecedencia pq preciso que alguem fique com ela para que eu possa fazer certas coisas, ou preciso ir a lugares que ela possa ir. Hj eu não viro noites fora de casa… Se eu sinto saudades da minha vida de antes? Claro. Sinto falta de ser 100% eu, pensar só em mim. A maternidade não são só flores e alegrias, mas sou feliz e concilio bem minha vida. Pintar a maternidade como se fosse a visão do inferno, como se fosse a pior coisa do mundo é um pouco exagerado…Eu não sei ainda se quero ter outros filhos. Hj eu não quero. Daqui uns anos, n sei. E não, não me sinto pressionada pela sociedade, não sou casada (namoro ha uns anos o pai da minha filha), nao tenho medo/vergonha de ser mãe solteira,portanto, se eu tiver que “largar o namorado”, largo sem pensar. Não tenho medo de ser demitida, não tenho medo de não ser boa mãe, e não me sinto insegura nesse “cargo”. Sou ser humana, vejo prós, vejo contras, tenho dias bons e mto felizes e dias em que me sinto esgotada e consumida, mas não acho a maternidade um pesadelo. Criei uma paixão por bebês e admiro, cada dia mais, a capacidade da mulher que consegue dar conta de tudo. Nunca me orgulhei tanto de ser eu mesma, quanto tenho me orgulhado neste último ano. Sou uma pessoa infinitamente melhor e mais madura hoje do que eu era ha 1 ano. Se eu pudesse voltar no tempo, eu ainda assim teria esperado um pouco mais… teria me preparado mais. Mas hoje eu tenho certeza que gostaria de passar pela experiência de ter ao menos um filho…
    Td esse seu discurso é tão “apelativo” quanto o discurso de quem tenta enfiar goela abaixo das childfree que sem filhos a vida fica vazia. Mas enfim…boa sorte na sua jornada, que sua vida seja mais doce e que você passe a enxergar o lado bom das coisas

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    • Aí porque você gosta de ser mãe, todo mundo tem que gostar? Querida, você está no lugar errado. Acesse aqui http://revistacrescer.globo.com/ é mais a sua cara.
      E é exatamente por causa de pessoas como você que tem gente que cai na armadilha que ter filhos vai ser sempre bom. Nem sempre é. Pode ter sido para você, mas as pessoas não são iguais a você. Respeite isso. Entenda que para algumas pessoas, “ficar sem fazer as unhas” ou “não poder ir para um bar e tomar todas” não é o principal problema de se ter um filho.

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      • Fernanda disse:

        Gabriela, você pode dar sua opinião e apontar todos os prazeres de ser uma mãe feliz e contente, mas a Carol não pode discordar e dizer que para ela a maternidade não é assim? Não está certo isso não…

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      • Thais disse:

        Acho muito boa a ideia de criar um espaço onde pessoas que tb não se sentem bem com a paternidade possam encontrar outros com a mesma opinião.
        É óbvio que existem momentos ruins na vida de quem tem filhos, acho que a maioria das pessoas sabe disso.
        O arrependimento pode surgir para quem teve.
        Realmente entendo que pessoas decidam por não ter filhos ou os tenha e se arrependa, sem julgamentos.
        Permita-se pensar sobre isso, Gabriela.

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    • Júlio Santos disse:

      Sugere que criar seres humanos é apenas ter tempo pra eles… ao ver a mãe preocupada com tarefas, horários e salários, já se está passando a ideia de que viver é isso… mas não é.
      Produzem-se ao milhares adultos competitivos, que não percebem que partilhar tarefas, dividir lucros, desacelerar está bem mais próximo de viver do que este cenário do orgulho de algumas mulheres de “dar conta de tudo”.
      E alguns ainda veem com bons olhos a desoneração do pai, que se torna apenas namorado da mãe. Mas essa é precisamente a pior herança do machismo, gera neuroses sociais, sexuais infindáveis, não muda o mundo.
      Ser mãe ou pai não é, definitivamente, para todos(as).
      Não é uma questão de querer, é ser de fato, estar pronta(o) para, aceitar constantemente os desafios/novas questões.
      Enfim, é um problema grave.

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  3. Juliana disse:

    Tenho trinta anos e um filho de 9 anos,crio ele bem porque afinal ele não tem culpa,porém não existe nada pior do que ser mãe ,simplesmente odeio ser mãe.Infelizmente a sociedade julga muito por isso não dá para falar isso abertamente,porém como qualquer outra decisão ela está sujeita a arrependimento.

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  4. Ana Bárbara disse:

    Eu nunca tive tanta certeza do que sinto até encontrar esse blog. Ainda não consigo pronunciar as palavras “me arrependi de ser mãe” em voz alta, porque temo o julgamento alheio e as consequências emocionais em minha filha, mas de fato, a maternidade não é o que eu imaginava e o instinto é utópico. Depois que me tornei mãe, perdi minha identidade e passados 4 anos, ainda não consegui juntar todos os meus caquinhos. Sinto que nunca serei quem eu queria ser, porque fiz uma escolha errada. Mas, afinal, a maturidade é isso: saber que nem sempre faremos as escolhas certas, mas saber lidar com as escolhas feitas. Obrigada pela oportunidade de desabafar algo que nunca falei pra ninguém, e não sei se conseguirei um dia.

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  5. Andreia disse:

    Texto excelente! Fala tudo, narra exatamente como temos que ser e viver como mães perante a sociedade. Parabéns! À Gabriela que bom que ela se sente assim, tomara permaneça, o que o texto quer dizer é um não ao achismo de que ser mãe é totalmente perfeito. A figura de mãe que vemos e que todos têm é aquela que não pode ser imperfeita e isso é muito mal também para nós, sempre temos que ser doadoras sem querer nada em troca; temos que ser magnânimas em relação a tudo; aceitar como nossos filhos são independente do que acreditamos; etc etc etc. Só que não é assim, não!

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